A vida parece ser uma imensa linha reta, mas o importante são as esquinas. Nas esquinas ocorrem os encontros, os acidentes, vislumbramos novas paisagens. Nas ruas retas, sabemos o que está à frente, nos precavemos, mudamos de calçada. Ao dobrar a esquina, podemos esbarrar com um amigo que não vemos há muito tempo ou com um ladrão que nunca gostaríamos de ver. Sou jovem, mas já dobrei muitas esquinas nesta vida e já vi muita gente dobrar e esbarrar comigo. Já fui assaltado, mas já esbarrei com amigos de amizades que fiz em sonhos e que a realidade só confirmou, pois a realidade serve pra isso, pra confirmar as utopias. Nas primeiras esquinas que dobrei, conheci a miséria, depois conheci cutias, dobrei outras e conheci protetoras de animais, conheci meus pais. E fui vivendo uma vida sinuosa, cheia de intercessões. Comecei a escrever para meu regozijo pessoal e porque sempre soube que a escrita cria infinitas esquinas que nos trazem novas paisagens. Fui um profeta de ninguém, um guru de coisa nenhuma. Pois diferente dos grandes mestres, dos grandes líderes, dos grandes exemplos, eu ando sem destino algum. Não quero chegar a nada, não tenho objetivos, não tenho ponto de chegada. Ando pelo prazer de andar e neste caminho outros resolveram andar ao meu lado porque também sentem prazer em cada passo, não porque seja eu, não porque são eles, mas pelo prazer de ir dobrando esquinas. Numa esquina da vida, esbarrei com tia Alexandra. Em outra esquina que sequer lembro se veio antes ou depois, esbarrei com tia Rita. Ah, não posso dizer que é antes ou depois, pois talvez eu caminhe por uma grande estrada circular cheia de esquinas que formam pequenos círculos, então não há antes e não há depois. Sei que tia Rita e tia Alexandra estavam nestas esquinas, com todo respeito a elas, pois sei o baixo valor que os humanos dão às esquinas. Ouvi de uma vizinha mui católica que as esquinas são locais de macumba, na televisão vi que são das putas, mas esquina pra mim é tã0-somente o local dos encontros, de qualquer encontro. Não sei exatamente quem essas tias são, não sei exatamente como elas são, não sei nem se me interesso por isto. O que me interessa é que elas nutrem o mesmo prazer pelo caminhar e pelas esquinas que eu. Elas se esbarraram. Nesse encontro, como nos filmes, em que casais se chocam e misturam papéis, elas se esbarraram e misturaram histórias. Tia Alexandra, até ontem estava apenas nos comentários do blog, hoje, é uma entrevistadora, que não seja uma entrevistadora profissional, mas quem está aí para as profissões? Eu sou um gato, não posso ter sequer um diploma! E tia Rita, pegando o gosto por ser entrevistada por causa de suas histórias fantásticas com gatos que parecem saídas de emocionantes filmes de aventura! As duas se esbarraram numa esquina, esquina que o acaso quis que tivesse o meu nome. Este esbarrão eu conheço bem e imagino que muitos outros esbarrões silenciosos aconteçam diariamente em minha fanpage, twitter, blog. Isso me dá um alívio tão incrível, alívio pois me afasto de uma pesada imortalidade. Sim, sim… os humanos têm sede por imortalidade, nós gatos não. Nós gatos prezamos a independência e a autonomia, ficamos felizes porque vocês caminham também sozinhos, porque vocês dobram esquinas sozinhos e promovem encontros sozinhos, enquanto nós, agora sim, podemos dormir. Fico feliz, pois se eu sumisse hoje, o mundo não teria sido presenteado com um objetivo, mas teria mais esquinas para que mais esbarrões fossem dados. Como é bom ser cada vez menos imortal.
Dedico este texto a duas leitoras do meu blog que se encontraram e criaram juntas uma entrevista. Todo texto deve ser cuidado e acariciado como um filhote de gato. Fico feliz que elas estejam cuidando de seus gatos, feliz que elas estejam acariciando seus textos. Leia aqui: http://catclub.com.br/gatos-especialmente-especiais/
Ass.: Borges, o gato – @borgesogato – o leitor das minhas leitoras.












