Fãs,
Há pouco menos de um ano eu nasci. Mas o tanto de história que tenho para contar, parece que vivi cem anos. Fui abandonado, não sei quem são meus pais biológicos, passei os primeiros dias da minha vida dentro de uma gaiola esperando que alguém pudesse me encontrar. Um casal jovem bateu os olhos em mim em um desses encontros que estão programados desde a criação do mundo: hoje eles são meus pais, Emanoelle (@emanoelleoname) e Vinícius (@cacofonias). Fui criado em um apartamento e vivi minha infância na biblioteca, deram-me o nome de Borges em homenagem ao escritor argentino Jorge Luís Borges, apaixonado pelas bibliotecas. Fui alfabetizado, apaixonei-me pela leitura, tornei-me escritor e ganhei uma irmã, a gata Christie, que veio me trazer alegria e distrair-me o tempo em que não estou lendo. Posso dizer que me encontrei diversas vezes com esse sentimento belo e tolo que os humanos chamam de felicidade e mais feliz fiquei, pois nesses encontros não estivesse só, estavam os olhos dos meus pais que pareciam mais felizes que eu, sem eu saber bem o motivo, como se eu de alguma forma misteriosa também os tivesse resgatado de algo na vida e os libertado também de alguma gaiola. Encontrei, mais adiante, vocês, meus fãs, meus leitores, que foram a ração da minha literatura felina. Como não me apaixonar com as visitas diárias e carinhosas da minha primeira fã, Paola? Como não me alegrar com as mensagens contagiantes da Drika? Como não morrer de rir com os comentários insólitos e engraçados da Aline Fernanda? Como não aprender com meu tio Poteusso? E como não me sentir abraçado diante de tantos outros: Karina, Marília, Vera Lúcia, Nívea e sua filhinha linda? Ontem, em mais uma desses encontros das esquinas do mundo (e toda esquina que se preze tem um gato), fui classificado para o Blog Talent Show do Youpix, o maior evento da internet do Brasil e vou disputar uma grande final em São Paulo. Estarei lá representado pelo meu pai e mordomo, pois eu prefiro as bibliotecas e o marasmo das letras cansadas dos livros às badalações e festas, mas escreverei um discurso para que seja levado até às 10 mil pessoas que poderão estar presentes e falarei de nós: nós que somos gatos e não simples gatos, nós que somos vira-latas na vida, nós que apanhamos no dia a dia, que para nós se levantam todos os pés, que para nós resta o abandono, que para nós sobra o lixo. Lá, quero que as palavras esculpam nos escombros que nos jogaram a riqueza de nossas sete vidas; quero que do abandono se faça a companhia; que, lá, eu não esqueça jamais do gatinho branco e sozinho na rua imensa; que, lá, eu seja o Campo de Santana de onde saí, que eu seja a Amigo Não se Compra, a Adote um Gatinho, a Sozed; que, lá, eu seja todos os humanos que se uniram aos felinos ao fazer do lixo e do abandono a matéria da sua poesia e que lá eu seja também o Borges, o escritor argentino e o gato brasileiro escritor, que eu seja minha irmã e meus pais. E mais importante, ainda, o que já sou, um gato vira-lata que venceu todos os complexos de vira-lata para driblar o anonimato e a miséria a que o mundo achou que me condenaria. Viva os livros, a literatura e o amor que me fizeram Borges, o gato.
Ass.: Borges, o gato – @borgesogato
