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Castanhas

Fãs,

Amo castanhas, meu pai também, minha mãe não, a Christie disse que não sabe direito o que é. Amo castanhas para brincar, jogar de um lado para o outro. Papai gosta para comer. Mamãe disse que só servem pra decorar a cozinha e Christie se lembrou agora o que é, mas que prefere não se manifestar sobre o assunto. Castanhas parecem imensas rações de brinquedo, castanhas do Pará, então, são ótimas. Madrugada a dentro, papai alimenta-se de castanhas e escreve textos em seu computador e em folhas avulsas de papel. Christie muitas vezes já está dormindo, mamãe, ronca que ouço da sala, papai escreve. Eu fico dando palpites. Papai geralmente passa a madrugada escrevendo piadas. Ele me pergunta se são boas. Eu digo que sim, falta apenas achar a graça. Ele ri. Pronto. Achamos. Toda vez que tento pegar uma castanha, ele me dá um peteleco nas orelhas. “Não mexe nas castanhas, Borges, são de comer.”  Papai acha que porque ele come castanhas, elas são de comer. Essa é sua visão exclusivista do mundo. Como quer passar a noite escrevendo piadas assim? Piada é justamente ver pelo outro ângulo, pelo ângulo impossível. Falo pra ele: “Pai, o senhor me deixaria brincar com uma vaca?”, “Com uma vaca?”, “Ué, deixaria!” “Então, vacas para o senhor não são de comer e poderia ser minha amiga? Castanhas também.” Papai ri. Temos outra piada. Ele me joga uma castanha, fico pateando e correndo pelo chão da sala. Castanhas são ótimos brinquedos, assim como as palavras.

Por Borges, o gato – @borgesogato

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3 comentários em “Castanhas

  1. Ah… Não imagino mais a vida sem seus textos. Sua visão felina completa tudo.
    E daqui 50 anos, quando pesquisarem sobre Borges, o gato, dirão: ‘Sortudos esses humanos que viveram no tempo de Borges! Presenciaram o nascimento da Gatidade e da literatura Borginho – que privilégio! ‘

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