Trim, trim, trim. Tocou o telefone. Aqui na casa da vovó o telefone toca assim ainda. É um telefone antigo, preto, de disco, bem diferente do meu iphone felino. Papai tava sentado na cadeira de balanço da vovó, fazendo bolinhas de sabão no cachimbo pra gente brincar.
- Atende lá, Borges, pra eu não precisar parar de fazer as bolinhas.
- Mas de que adianta você continuar fazendo se eu não vou brincar do mesmo jeito?
- Tem a Christie, moleque egoísta.
- Ah, pai!
Trim, trim, trim!
- Atende, Borges.
- Atende, Borginho. – berrou a Christie.
- Odeio atender telefone.
- Trim, trim, trim.
- Alô.
- Alô, quem tá falando?
Caros fãs, no mundo há poucas coisas que podem irritar um gato, uma delas é quando se atende o telefone e a pessoa que está ligando pergunta: quem é? Como assim: “quem é?” Ela não sabe pra quem ligou? Busquei paciência olhando de longe as bolinhas de sabão saindo do cachimbo do papai e sendo estouradas pela Christie.
- É o Borges, o gato.
- Hahahahahahahahahaha. Borges, o gato? hahahahaahaha.
Com certeza era alguém querendo testar minha paciência, pensei em fazer um fuzzz e desligar o telefone, mas quis mostrar superioridade.
- Sim, é o Borges, o gato
- O gato?
- Sim.
- Falando no telefone?
- Evidente.
- hahahahaaha, você fala engraçado.
- O que o senhor deseja?
- Tem algum humano aí, gatinho, com o qual eu possa falar? Será que você pode falar igual a humano um pouquinho?
- Eu já estou falando igual a humano, senhor. Ou por acaso eu estou miando?
- Tá bom, tá bom… então chama alguém que está aí do seu lado.
Respirei uma vez mais. Não sei porque papai não atendeu esta porcaria, afinal, ninguém ia ligar para mim mesmo, pois não dou meu número por aí.
- Papai, tem um senhor engraçadinho aqui no telefone.
- Ai, meu Deus. Tá bom, Borges, vou atender.
- Alô.
- Oi…
- É o pessoal do Borges, o gato?
- Pessoal não, é só o pai dele mesmo.
- Ah, sim, claro, pai dele.
- O que você faz, meu senhor?
- Sou coordenador de escola.
- Ok. Podemos passar aí amanhã para tirar uma foto do gato?
- Sim, claro.
- Obrigado. Até manhã então.
- De nada, até.
- Papai, o que o moço queria?
- Saber de você.
- E por que ele não me perguntou?
- Porque ele achou que eu que escrevo e falo por você.
- E amanhã então eles vão vir fotografar o senhor?
- Não, você.
- Ué, não entendi.
- Nem eu, mas quem é que entende os humanos?
Ass.: Borges, o gato – @borgesogato

















