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Entre todas as cartas, a carta

Olá, fãs!

Ontem, como falei, meu tio humano entregou  a carta que escrevi ao carteiro Hermilson. Se você está pegando esta história pela metade, leia este texto aqui e aqui).

Carteiro Hermilson é o carteiro aqui da minha rua. Papai, ao conversar com ele, descobriu que ele nunca ganhou cartas além das tradicionais contas a pagar e mensagens de políticos em épocas de eleições. Resolvi assim, escrever-lhe algo. Revelo para vocês o que foi:

“Olá, tio carteiro.

Se  você não tem por hábito ganhar cartas, confesso que também não tenho por hábito escrevê-las. Sou um morador do mundo virtual: escrevo e-mails, posts, tuites, mas raramente escrevo cartas. Este nosso encontro é, então, o encontro entre diferentes mundos: o humano e o felino, o real e o virtual, o do escritor e o do leitor. Gosto quando mundos se encontram e se tornam um só. Ontem, você era o carteiro e eu o poeta. Hoje, somos amigos pelas palavras e ao entregar-lhe esta carta me sinto tão carteiro quanto você e espero que, ao lê-la, você se sinta tão poeta quanto eu, pois seus olhos me ajudam a fazer com que os versos existam.

Nasci sem pertence algum. Hoje, tenho muitas coisas: ração de marca, caixas de papelão, bebedouro, ratinhos de brinquedo e arames de fechar pão de forma. Mas, dentre tudo que me pertence, o que mais me transformou foi a capacidade de ler. Li tanto em minha antiga Biblioteca de Babel que passei não mais a ter as palavras, passei a ser delas. Hoje, eu moro em um mundo feito de letras. Fiz milhares de fãs que são meus amigos, que são minha família, por isto os chamo de tios e tias, graças às palavras. Os cegos, creio eu, conhecem os outros pelo tato, pelo cheiro, pelos sons. Meus fãs, não me conhecem pelo tato, tenho minhas dúvidas se me conhecem pela visão, pois gatos brancos parecidos comigo há muitos, não me conhecem pelo cheiro, tampouco pelos sons, mas me conhecem pelas letras. Eles leem os textos e sabem que se trata de mim. Pelo texto, venho a você e é meu texto o melhor presente que tenho para lhe oferecer. Singelo, mas o melhor de mim, pois nele está tudo que sou. Sou grato às palavras, pois são amigas nada ciumentas. São amigas daquelas que te apresentam outras amigas e outras e outras e outras e quando se percebe, vive-se em meio a uma festa. Silenciosa festa a festa das palavras, mas não menos feliz. Espero que, a partir de hoje, sejamos também fãs um do outro, amigos e parentes, pois não há mão única no mundo dos meus textos. Tudo é ambíguo, duplo, dual. E, este texto que o escrevo, na verdade, é mais de autoria sua que minha, pois se você não tivesse aparecido na minha porta com sua curiosidade, com seu sorriso, com suas cartas, ele jamais teria nascido. Obrigado.”

Ass.: Borges, o gato – @borgesogato

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10 comentários em “Entre todas as cartas, a carta

  1. Owwnn Borginho que carta linda, com um presente singelo mas mais que especial, suas palavras são tocantes e seu sentimento ao escrever tão vivo!!!

    Ai Borges agradeço vc por fazer mais uma pessoa feliz…Continue sempre sendo esse gato tão maravilhoso e poeta que é.Te amo branquelo. <3

    Lambeijos!!

  2. Borginho, você é muito especial ,na minha vida. E como escreve bem !!
    Já pensou em editar um livro??
    Deixe seu tio, Mário Grey, escrever . O que será que ele pensa sobre você ?
    bjs a todos,

  3. Que lindo!! Eu já tinha certeza que toda a minha curiosidade iria se transformar em encantamento…
    Cada dia melhor, Borginho!!!

  4. Ele demorou a receber uma carta e quando a recebe, ganha um presente desse. Singelo e encantador. Lindo!

  5. Borginho,
    A carta foi linda.
    Mas será que o carteiro entendeu tanta metáfora????
    Gostaria de saber…
    😉

  6. Se existem sopas de letrinhas, talvez haja um mar de palavras. Bem poderia existir… Porque eu poderia então mergulhar e viver pra sempre submersa. Numa Antártida escondida… talvez….

  7. Só há uma forma eficaz para que sejamos felizes, basta fazer o outro feliz! Belo exemplo, Borges. Por isso, que te admiro!!!

  8. Acho que esse foi um dos melhores textos que li, Borginho querido! Muito lindo. Depois conta para as tias como foi a reação do carteiro, conta?
    Beijinhos

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