Escuro

Fãs,

Hoje, a noite foi muito boa aqui em Sulacap. Faltou luz. Nunca tinha faltado luz nas nossas vidas. Paramos para pensar e conversar: papai, Christie e eu. Eu logo discordei, acho errada a expressão faltar luz, pois pressupõe que o escuro é só a ausência dela. Prefiro a expressão “fez escuro”, o escuro é bom, é um ente em si, eu gosto da noite e acho que o dia é que depende dela e não ela do dia. Papai tirou muitas fotos. Christie me perguntou curiosa: como papai tira fotos no escuro? Eu brinquei: dentro da máquina fotográfica, há um deus que diz: haja luz, quando fica claro, ele tira a foto, o nome dele é Flash. Ela acreditou, Christie é boa, acredita nas pessoas, eu não, sou um gato lido e quem lê não pode acreditar em gente. Papai é uma pessoa que gosta de nos distrair de formas diferentes, ele sabe o que cada um de nós somos e gostamos. Pra mim, ele fez sombras na parede na frente da vela e contou que para Platão, as sombras são apenas o reflexo de algo real, no caso, a mão dele: nós somos sombras de outro mundo. Pra Christie ele fez sombras engraçadas de cachorro, passarinho e cisne. Christie ria baixinho e não conseguia fazer sombra nenhuma porque seus dedos são coladinhos, só de gato mesmo. Fomos tão felizes sem eletricidade, papai sem trabalhar. Eu tinha certeza que éramos do mesmo sangue, tinha certeza que éramos uma família, só não tinha certeza se éramos reais ou se éramos apenas sombras de algo real em outro mundo.

Borges, o gato – @borgesogato

Christie deitada à luz da vela, ouvindo histórias contadas por papai
Ao fundo estou eu, pensando em nossas sombras e na frente Christie dormindo ao ouvir histórias contadas ao redor do fogo

9 comentários em “Escuro

  1. Muito bom o texto, Borginho!
    Adorei a expressão “gato lido”. =D
    Os humanos deveriam aprender com vocês a apreciar melhor a escuridão.

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