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Proxeneta das palavras

Fãs,

As palavras estão aí, há que usá-las. Muitas, inclusive não estão, pois não se as usa mais. Papai diz: “Borges, você prostitui as palavras, fica dando-as assim por qualquer vintém.” Papai diz isto insinuando que sou um verborrágico, que falo palavras a esmo. Não é bem assim, o que eu faço é, assim que aprendo, logo as uso. Outro dia aprendi com meu xará Argentino Jorge Luís Borges: “falar é incorrer em tautologias.” Quis logo usar a palavra tautologia. Em uma discussão com a Christie disse: “Isto é uma tautologia!” E ela, não é não, Borginho, eu nem sou médica. Esta é a grande graça de usar uma palavra nova, pois o ouvinte a reinventa, dá o significado que ela tem, julgando-a pela aparência como se julga uma prostituta. Então passei a tarde a brincar de dicionário inventado com a Christie, eu dizia a palavra e ela tinha que chutar o significado. Energúmeno: “aquilo que coloca na sala, Borginho”; Inexorável: “um tipo de palha de aço, irmão!” Delir: “um carro: ele é delir e devir!” Eu ria muito com os significados da Christie, se ela voltasse no tempo e parasse no século XIX não conseguiria entender nada do que é dito. Por isto, sempre que aprendo uma palavra nova a faço minha, pois já não sou mais eu sem ela: sou tudo que ela tem a dizer e, além disso, sou os significados que inventei pra ela.

Por Borges, o gato – @borgesogato

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