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Sashimi

Eu estava relendo alguns versos do Bashô quando minha irmã me interrompeu:

– Borginho, Borginho, tô com vontade de comer japonês.

– Tá doida, Christie? Desde quando você come carne de gente?

– Ai… tá ficando burro? Japonês é comida japonesa.

– Aaaaah… uma metonímia!

– Não, queria comer aquele peixinho cru mesmo.

– Não, Christie, metonímia não é uma comida.

– É uma bebida? Também nunca bebi.

– Ai, deixa pra lá. Fique com sua vontade, vou continuar lendo:

– “Depressa se vai a primavera

Choram os pássaros e há lágrimas

Nos olhos dos peixes.”

– Nossa, Borginho, essa poesia só me deu mais fome, tem tanta coisa gostosa nela, é pássaro, é peixe…

– Ai, Christie… Tá bom. Vou conseguir uma lata de atum para você.

– Como???

– Ora, deixe comigo…

Comecei a miar, miava como se estivesse sendo esmagado por um São Bernardo. Mamãe subiu até o quarto:

– O que foi, meu amor? Por que tá miando tanto?

– Miaaaaaaaaaau-au-au! Miaaaaaaaaaaaaau-au-au!

– Quer raçãozinha, filho?

Mamãe colocou ração e eu continuei.

– Miaaaaaaaaaau-au-au! Miaaaaaaaaaaaaau-au-au!

– Ai, meu Deus, não era ração. Quer aguinha, filho?

Mamãe abriu a torneira e eu continuei.

– Miaaaaaaaaaau-au-au! Miaaaaaaaaaaaaau-au-au!

– Ai, meu Deus, o que será isso? Já sei! Vou te dar uma lata de atum.

Parei de miar na hora.

– Era isso, né? Borginho guloso! Toma!

Mamãe abriu a latinha, colocou nos potinhos e desceu novamente para a cozinha.

– Pronto, Christie. Está aí seu atum. Agora vamos atacaaaaaaar!

– PARADO!

– Que foi, tá doida?

– Não toque nesse atum!

– Mas você não queria tanto?

– Sim.

– Então?

– É que eu quero comer comida japonesa e vi que os japoneses comem com esses pauzinhos aqui, veja o que roubei da bolsa da mamãe.

– Huuum… então hoje não vamos simplesmente poder enfiar a cara na comida e comer como senhores feudais?

– Exato! Hoje seremos dois japonesinhos, ling-ling!

– Ai… me dê logo esses hashis.

– Borginho, vai ficar falando tudo em inglês?

– Christie isso não… ah, deixa. Me passa os pauzinhos.

Fãs, acreditem: Christie e eu ficamos horas e horas tentando pegar um atum com os hashis. Descobri que eles não são nada anatômicos para patas de gatos, além disso é muito difícil pegar atum quando já vem todo picado. Passado um tempo, mamãe subiu, olhou para as tigelinhas lotadas e falou: “Nossa, que estranho, achei que era atum que vocês queriam. Vou jogar fora antes que estrague aqui no quarto!” Ela simplesmente levou tudo embora e a nós, de culinária japonesa, restou apenas os pauzinhos.

Ass.: Borges, o gato – @borgesogato

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9 comentários em “Sashimi

  1. Ô delícia de crônica e de ler logo de manhã! Meu dia ficará mais alegre e leve, Borginho e Christinha, por causa da fofura de vocês. Lambeijos!

  2. Que delícida de texto, Borginho!
    Ainda bem que meus gatos não sabem ler… imagina eles usando essa sua técnica para conseguir petiscos?
    Beijos!

  3. que peninha… ficaram sem atum… Mia novamente daquele jeito, Borginho, acho que vc consegue o atum mais uma vez hehehehe

  4. Hahahahah amei! Que mancada, heim, gatinhos? Logo mamãe lhes dá outra porção deliciosa de atum! Beijos, amo vocês!

  5. kkkkkk, tanto trabalho para acabar não comendo!!!
    Borges esses palitos são complicados mesmo, já tentei usar sem o polegar e cheguei a conclusão de que se não tiver um melhor cair de boca mesmo!!

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