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Humanos em segundo plano
Fãs,
Papai hoje passou a tarde assistindo comigo e com a Christie um desenho muito legal. Se chama Muppet Babies. Ele falou que passava no SBT e que sempre assistia. O que eu achei mais legal ainda, foi que só os bichinhos aparecem. Quando a babá entra no quarto, não aparece a cara dela, só as meias coloridas. Achei que isto tem tudo a ver com nosso blog, pois aqui o que aparece somos nós os gatos: Christie, eu e Mario Grey, os humanos, convenhamos, não têm importância, né?
Claro que sei que tem muito blog e fanpage de gatinho por aí que é mais humano que felino, ótimo, parabéns, mas meu estilo aqui é Muppet Babies, humanos têm a cabeça cortada. hehehe O chato é que os humanos são tão egocêntricos que ficam procurando a sua espécie em tudo. Então me perturbam com coisas do tipo: “Borginhooo, quem é que escreve por você?” Ai, ai… não tenho culpa se o gato de vocês é analfabeto, eu sei escrever, tá? No caso mais recente de sandice de leitores, uma doida foi até o jornal para o qual o papai escreve para espinafrá-lo dizendo dentre palavrões que ele é um incoerente por falar uma coisa lá e outra aqui!! É, isso mesmo que vocês leram, é surreal, mas é isso! Caros, fãs, quem escreve aqui sou eu, Borges, o gato, então não há incoerência em nada, pois papai há tempos não tem nem mais a senha. Mamãe já está com medo de sair à rua achando que um dia vão querer agredi-la porque ela não come ração. Mas, fãs, quem come ração sou eu, tá???
Há um tempo, recebi uma proposta para escrever para um jornalzinho que era de humor e eu justamente recusei para que não se criasse nenhuma confusão entre mim, meu pai e minha mãe. Eu sou Borges, cronista, blogueiro, filósofo felino e fofo. Eu, Borges, sou gato. Não sou defensor dos animais, defendo os animais porque sou gato, oras, nada mais justo, né? Não sou representante de nenhuma associação de felinos, embora ajude a divulgar sempre que possa. Não faço resgate de animais, vocês já viram gato resgatar algum? Só se for seu filhote. Fãs, aqui é um blog de literatura felina, filosofia felina, o resto é coisa de humanos e humanos são espetaculares, mas também são horríveis. Por isto, aqui não entra mamãe, não entra papai, não entra vovô, não entra vovó. Aqui quem manda sou eu e Christie, pois os humanos que busquem seus espaços, então, por favor, jamais me insultem me confundindo com um (com todo respeito a família e aos fãs, hehehe)
Ass.: Boges, o gato – @borgesogato
Minha mãe humana, tão felina
Fãs,
Engraçado pois vejo na televisão várias crianças comemorando o dia das mães e, elas, conheceram suas mães antes mesmo de nascer. Estavam ali na barriga, sentindo-a, ouvindo-a. Eram praticamente a mesma pessoa. Eu não. Bom, eu sim. Mas não é desta mãe que conheci antes de nascer que falo. A mãe da qual falo, conheci depois de nascer. Quando conheci minha mãe, sequer sabia que era minha mãe. Era uma moça que passou do lado da gaiolinha e eu fiquei olhando. Depois me enfiou dentro de uma caixa de sapatos e me trouxe pra casa. Nos primeiros carinhos que ganhei é que fui percebendo: nossa, é minha mãe, ela me acaricia como uma gatinha peluda me lambeu um dia.
Christie conheceu nossa mãe já em casa, escapou do ônibus, da rua barulhenta e veio em um serviço Delivery trazida pela tia da Árvore de Noé. Nos primeiros carinhos, recordou o que era ter uma mãe e, hoje, ambos, sabemos todos os dias o que é isso.
O que amo em nossa mãe é que ela é assim, felina como nós. Ela não é uma heroína, não é um robô, não é uma extraterrestre. Ela é uma gata, uma gata que ama seus filhotes, é preguiçosa como nós, mas também sabe caçar como nós. Nossa mãe é uma gata por direitos adquiridos. E sinto que cada dia que passa, ela fica com mais carinha de gata, vai se transformando. Já vejo o dia em que vai lamber seu próprio pelo, subir na pia do banheiro, ronronar, comer no potinho e até vomitar um bolão de pelo. Mamãe é como nós. Daríamos mil mariposas para ela, daríamos mil ratinhos para ela, daríamos mil lagartixas para ela, mas como sua metamorfose ainda não está cem por cento acabada, vamos dar só muuuuito carinho.
De nada mamãe por te deixarmos tão feliz no seu dia. De nada mesmo! Mamãe, Emanoelle gatinha <3
Borges Gaiato 8
Borges Gaiato – 7
Borges Gaiato 3
Uma esfinge que boceja
Fãs,
O problema da esfinge é sua cara de gente. Não fosse isso, seria só felino. É que os egípcios gostavam tanto de felinos que queriam sê-los e meteram uma cara humana bem no meio da obra de arte. Notem que a esfinge é séria, cara de nada. Sem graça a pobre. Os humanos gostam dessas carinhas assim, que parece que cheiraram puns infinitos, vide a Monalisa. Se a esfinge não tivesse cara de gente, teria de um felino pra continuar naturalmente seu corpo, dizem que de um leão. Nada. Eu acho mesmo que seria de um gato. E o gato estaria bocejando. Imaginem como isso mudaria toda a história da humanidade!
Se a esfinge fosse um gato bocejante, não haveria guerras, pois os egípcios iam preferir dormir que combater. Não haveria pirâmides, pois contagiados pelo sono, poupariam milhares de servos. E isto influenciaria império após império e Napoleão não perderia a guerra em Waterloo, pois sequer ele iria a Waterloo, sequer seria um general, seria um dorminhoco que brincaria com seus gatinhos nas horas em que se encontrassem acordados. Se a esfinge fosse um gato bocejando, não existiria Bush, os EUA não seriam bélicos, Coréia do Norte e do Sul não estariam ameaçando guerra, seus presidentes estariam dormindo abraçadinhos e o mundo estaria em paz. Se a esfinge fosse um gato, um gato bocejante, o mundo teria sido outro. Os homens não teriam feito tanques e aviões de guerra, teriam feito camas.
Ass.: Borges, o gato – @borgesogato
A esfinge bocejante
Borges puxa a cordinha 2
O afoGATo mais bonito do mundo
Livre adaptação do conto “O afogado mais bonito do mundo” de Gabriel García Marquez por Borges, o gato
para ler o texto original de García Marquez, clique aqui
A areia era escura e dura, as tardes não tinham flores, o povoado desconhecia a música, as pessoas raramente sorriam. Três meninos sentados na praia olhavam o bater das ondas, matando o tempo enquanto o tempo não os matava. De repente, avistaram algo ao longe: é uma imensa baleira branca, gritou um. Não, não, é um navio de piratas, gritou outro. É um tronco de árvore, arriscou o terceiro. Conforme o desconhecido se aproximava, mais razoáveis ficavam os palpites dos meninos: É um homem afogado! Não, não… olhem o que acabou de chegar à praia é um imenso gato afogado. É um afoGATO! Riram. Nossa, pobre bichano, deve ter morrido no mar e está inchado por causa da água. Tornou-se a brincadeira de fim de tarde: olhar o corpo do animal, enterrá-lo e desenterrá-lo na areia escura, tentar edificar castelos de areia para que dentro fosse rei.
O sol já se punha, um grupo de pescadores chegou por aqueles cantos da praia e viram os meninos a brincar com o gato: o que é isso, crianças, vocês estão brincando com um gato morto? Parem com isso agora mesmo. Vamos levá-lo e saber se alguém no povoado perdeu o pobre animal. Os homens enrolaram o afogato em um pano e o carregaram para o centro da vila.
No começo da noite, estava o afogato em uma comprida mesa e todos os moradores ao redor a observá-lo. Era um grande acontecimento para aquele povoado de pescadores. Mas, ninguém sabia de quem era o animal. Sequer nunca tinham visto um gato branco: não sei porque o trouxeram, sabem que aqui no povoado evitamos gatos para que não roubem nossos peixes, não tinha como ser de algum de nós, falou uma senhora de incontáveis anos. Um dos pescadores, tomando as dores dos donos do gato insistiu: mas de alguém há de ser, alguma família deve de estar chorando agora pelo sumiço do bichano. Vamos nos organizar e ir perguntar nos povoados vizinhos se alguém perdeu um gato. Mas e se ele foi atirado de um navio ao mar? Primeiro temos que perguntar se não é de alguém. Assim, saíram todos os homens rumo aos povoados vizinhos para saber que família chorava pelo pobre animal. As mulheres se comprometeram a ficar ali e limpar o corpo para entregá-lo em condições aceitáveis aos seus pais humanos.
As senhoras, sempre de luto, encaravam a arte de limpar o defunto como uma ação corriqueira, como lavar as cuias de comida ou desescamar o peixe para o almoço. As meninas aprendiam atentas aos ofícios dados pela morte e apreciavam as ágeis mãos das mães e avós. Conforme tiravam as algas, os crustáceos e limpavam o pelo, o gato ia recuperando sua elegância felina. Lavaram-no até ficar totalmente branco de novo e as mocinhas juravam que até podiam ouvir seu ronronar diante de tanto cuidado. Durante a limpeza, uma das senhoras pensou em voz alta: pobre gatinho, como seria triste se fosse do nosso povoado, nenhum dos homens lhe deixaria comer os peixes, as pessoas aqui não amam gatos, as crianças estão sempre na praia e gatos não ligam para o mar. Porém, outra respondeu também em pensamento alto: ah, gatinho, como você seria feliz se fosse de nosso povoado, as mulheres que sempre são tão sozinhas teriam a sua companhia, esperto como és, caçarias teus peixes no próprio mar, serias o melhor pescador da vila e as crianças ficaram mais conosco para passar tardes inteiras brincando contigo. Logo depois aos pensamentos, uma menina olhou fundo nos olhos verdes do gato e gritou ao ponto de assustar a todas as mulheres: É o Borges! Borges?, mas que Borges? Perguntaram as outras. O Borges, nosso gatinho branco, explicou a menina. Mas será mesmo o Borges? Sim, deve ser, é possível… nossa, Borges. Mas que graça é esse Borginho, que lindo, ah, nunca vi um gatinho tão bonito no mundo como esse Borges, o nosso Borges.
Os pescadores retornaram ao povoado de madrugada. Infelizmente não encontramos a família desse gato branco, em nenhum povoado próximo alguém perdeu um gato, muito menos branco. Ele deve ter morrido em alto mar e alguém o lançou do navio. Não, não é nada disso, falou uma das mulheres. Esse é o Borges. Mas que Borges, perguntou um dos homens. O Borges nosso gatinho branco. E todos os pescadores se puseram ao redor da mesa e viram que era o Borges que estava ali. Todos começaram a lhe tomar no colo, a fazer gracejos e, em segundos, uma mulher já dizia: é meu filho! Crianças pulavam alegres: é meu irmão, meu irmãozinho gato. Um dos homens disse com convicção ser o pai do afogato. O líder dos pescadores então falou: temos que lhe dar um funeral digno.
Pela manhã, junto com o sol, saiu o imenso cortejo. Iam ali, enfileirados, mãe, pai, irmãos, infinitos tios e tias, avós, primos de Borges. O afogato era carregado em uma linda caixinha de papelão em direção à praia. Entre choros e cantos de despedida, o gatinho foi jogado ao mar para que voltasse quando bem quisesse. A partir daquele dia, a velha vila de pescadores onde as tardes não tinham flores e música, passou a ser conhecida como a vila de infinitas flores e das músicas alegres. Todos os piratas, pescadores, marujos que iam visitar orgulhosos aquele vilarejo estufavam o peito para dizer: este é o povoado do Borges, o gato.
Para todas as minhas fãs que de algum jeito me encontraram boiando pelo mar virtual e resolveram criar famílias ao meu redor: tornando-se minhas tias, irmãs, avós. Para vocês que dão mais sentido ao Borges que sou do que eu mesmo dou. Miados e ronrons sempre gratos, hoje em especial às tias Geisa C. M. Rotta, Rosaamaria de Oliveira, Beatriz Sauerweing, Rosangela Solon Solon e Rita Matufugi. Obrigato pelo presente da madrugada.
Ass.: Borges, o gato.

Eu, o afogato mais bonito do mundo, à deriva neste mar virtual para que minhas fãs encontrem algum sentido em mim. Agora eu vou, mas voltarei quando quiser.










