O texto da benção

Fãs,

Vovó me disse que antigamente as crianças eram mais educadas.

Disse que eu chego na frente dela, saio da frente dela, passo correndo, subo as escadas e não peço “a bença”.

Ela disse também que quando era pequena, tinha que pedir a bença e beijar a mão da vó. A vó deveria ter a mão muito gostosa pra ficar assim colocando a boca sempre. Avós com mãos de petisco, que sonho!

Pedi benção pra vovó, pro vovô, pra mamãe, pro papai. Nenhuma mão tava muito gostosa: ou era meio azeda ou meio salgada demais.

Então vim para o quarto e vi a Christie se limpando, pois os gatos, como os fogões modernos, são autolimpantes. Cheguei bem na hora que ela estava lavando a patinha e tive o estalo: Christie está dando “autobença”! Resolvi testar. Aí sim, achei  a ideia maravilhosa, passei a tarde pedindo benção a mim mesmo. E que Deus me abençoe! Sempre!

Ass.: Borges, o gato – @borgesogato

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Bença, Borges! Deus me abençoe!

 

Arrumando o guarda-roupa

Fãs,

Mamãe estava arrumando o guarda-roupa. Passou o carnaval, o ano começou de vez. Mamãe disse que as roupas que não dão mais ou que não usamos, podemos dar para outras pessoas ou, se já estiverem muito ruins, jogar fora. Papai não. Papai nunca arrumou o guarda-roupa. Dizem que meu pai ainda traz consigo no guarda-roupa as roupas de infância, a sua primeira blusa do Vasco, uma camisa autografada pela seleção de 94, umas camisas floridas dos anos 80, umas bermudas que não existem mais nem em museus de moda, uma coleção imensa de cachimbos, um pé-de-pato, camisas com frases que já foram engraçadas e blusas com uns desenhos de uns rostos barbudos. Mamãe diz que papai é louco por guardar tanta coisa. Papai diz que mamãe é louca por jogar as coisas fora. Ainda bem que gatos não precisam de armário, tudo que preciso vestir trago sempre comigo.

Subi no armário para ajudar mamãe a escolher as coisas, algumas me pareciam tão bonitas, divertidas, não entendia direto porque ela se livrava delas: dariam ótimas cabanas, arranhadores, mordedores, brinquedos que nos fariam sorrir. Se eu tivesse um armário: guardaria nele os afagos, jogaria fora tudo que for mal pago, guardaria os petiscos, jogaria fora tudo que me trouxesse risco, guardaria os insetinhos, jogaria fora os espinhos, guardaria os soninhos da tarde, jogaria fora todo remédio ruim que arde.

Ass.: Borges, o gato – @borgesogato

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Saudade de Babel, saudade de papel

Fãs,

Em cima do guarda-corpo da varanda, me bateu uma saudade. Saudade pelo olfato, trazida por algum vento distante. Era um cheiro de papel amarelado, destes que faz traça babar. Foi um aperto que deu no peito, um miadinho frio preso na barriga, lembrei da minha biblioteca que chamava de Biblioteca de Babel. Sei não de onde veio o cheiro, talvez alguma moça tenha ganhado um livro e ao abri-lo veio até mim. Talvez algum professor estivesse preparando uma aula. Algum menino se entretendo antes de dormir.

Papai trouxe consigo, para o castelo do Mario Grey, uma pilha de livros de gatos, os quais já li e reli umas dez vezes e um livro de poesia angolana que ficou esquecido na sua mochila e que os versos já sei de cor: “Desossaste-me cuidadosamente inscrevendo-me no teu universo como uma ferida, uma prótese perfeita, maldita, necessária.” Queria poder voltar a dormir sobre os livros e sentir o cheirinho das letras, como as menininhas aqui da rua sentem o cheirinho das flores no quintal. Queria mordiscar uma página, como a vovó mordisca os pedaços do bolo que faz. Queria dormir, simplesmente dormir sobre a estante de livros, na esperança de um dia virar um, pois os livros são objetos que se deve manipular como se manipula um gato e cada virar de página é como um carinho nas costas e cada leitura de sílaba como encarar de frente um gatinho miando.

Hoje, voltei a ler todos os livros que estão por aqui, de trás pra frente e de frente pra trás, mas li palavras soltas e brinquei de juntá-las com as de outras páginas perdidas, só para inventar histórias novas. Mesclei histórias de gatos, com poemas de além-mar, desci e peguei as receitas da vovó e adicionei xícaras de versos saltitantes ao meu dia. Corri para a sala e peguei listas telefônicas, bulas de remédio, Bíblia, fui juntando e montando a história de um comprimido salvador que veio ao mundo no 2473-0029. Depois me cansei e dormi sobre bulas, versículos, poemas e ingredientes. Sonhei com a Biblioteca e agora escrevo de dentro dela.

Ass.: Borges, o gato – @borgesogato

Para quem não chegou a conhecer a biblioteca onde fui criado e aprendi a ler, deixo dois posts:

1 - http://www.borgesogato.com/de-cabeca-pra-baixo-na-biblioteca/

2 - http://www.borgesogato.com/borges-en-la-biblioteca-de-babel/

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Estava no parapeito quando descobri que a saudade pode começar pelo olfato

 

 

 

Peixinhos

Olá, amiguinhos! Tudo bem? Têm brincado muito? Eu tenho brincado, dormido, comido e feito cocô todo dia :)

O banheiro aqui da suíte do castelo do tio Grey em que estou hospedada é muito legal. O chão é branquinho, quando eu deito nele ficou em destaque! Nele tem uma pia redonda que virou caminha do Borges. Mas, o mais legal é a cortina que ele tem! É uma cortina cheia de peixinhos. Eu fico ali olhando os peixinhos esperando eles fazerem glub-glub. Eles fazem não, mas dá uma fome. Chamo Borginho pra ver, mas ele nem liga, diz que é só pintado. Mas falo pra ele: Borginho, Pintado é um peixe muito gostoso também. Borginho vira as costas e vai embora. Eu fico ali tentando escalar pela cortina pra pegar os peixinhos. Mamãe coloca uma cortina dessas e depois ralha se a gente sobe. Quem entende as mães?

Ass.: A gata Christie, euzinha!

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Eu com os saborosos peixinhos

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Borginho foi lá me avisar que era pintado como se eu não gostasse de peixe de rio!

O que é sujo?

Fãs,

Difícil entender o que os humanos acham sujo e sua relação com o sujo. Um mendigo é sujo e se quer distância. O dinheiro é sujo e se quer proximidade. As mãos são sujas e se aperta. Os pés são sujos e ficam escondidos em sapatos. Outro dia vários fãs me questionaram porque eu gosto de cheiro de chulé! Sim, aprecio o perfume do chulé. Mas os humanos também acham, tanto que gostam de queijo provolone, parmesão, gorgonzola que nada mais é do que chulé em forma de queijo.

Humanos usam suas roupas uma vez e colocam para lavar, eu juro que posso usar a minha roupinha peluda a vida inteira sem dar uma lavadinha. Sabe uma das coisas que mais acho tristes numa casa? Um cesto de roupa suja. Olho para as roupinhas como se fossem judeus esperando para embarcar em um comboio para Auschwitz. Estão ali, quietinhas, sem poder fazer nada, dentro de um cesto, vem um humano e as atiram na máquina de lavar, sem dó. Elas ficam ali sendo molhadas, recebendo sabão, sofrendo em silêncio, girando, lavando e depois vai secar.

Esta tarde eu me compadeci com as roupas do cesto. Esta tarde eu estava um gato muito sentimental.

Ass.: Borges, o gato – @borgesogato

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O bicho homem

Fãs,

Da varanda do castelo do tio Mario Grey vimos tucano (clique aqui), vimos mico (clique aqui) e mais uma vez vimos o mais estranho dos bichos: o bicho homem. Na minha antiga biblioteca, li livros que explicavam o comportamento de todos os animais, mas nenhum deles dava conta de explicar o do bicho homem. De todos os bichos que vi até hoje, o bicho homem é o único que vende o seu trabalho. Se a abelha faz sua colmeia, o castor sua represa, o homem faz as coisas dos outros que mal sabe quem é.

- Borginho, por que é que o homem trabalha, é pra comprar ração pra comer?

- Não, Christie, pois ele poderia trabalhar para fazer a sua própria ração.

- Ele trabalha pra que então?

- Pra comprar.

- Comprar o quê?

- Tudo que não tem dinheiro pra comprar.

- Aaaaaaaah, tá. Entendi não.

Mas, não há muito o que entender. E o bicho homem se gaba disso. Gaba-se do seu jeito indecifrável, da sua imprevisibilidade, do seu mistério. Eu não. Eu me gabo de dormir toda a tarde, de gostar do mesmo sachê, de ronronar com os mesmos carinhos de sempre. A minha graça é o decifrável, a mansidão, a temperança. O bicho homem é para os que gostam de se lançar no mar revolto, já os felinos são uma lagoa.

Ass.: Borges, o gato – @borgesogato

gatos na varanda

Nós, olhando o bicho homem trabalhar

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Christie intrigada sem entender porque o bicho homem trabalha

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Nossa visão a partir da varanda

 

O mico Alegria

Fãs,

Christie e eu ouvimos um apito fininho e corremos para varanda pra ver o que era. Quando chegamos, vimos um bichinho peludo e com cabelo de Einstein. Começamos a conversar sobre ele:

- Borginho, aquele é o ratinho mais saltitante e barulhento que já vi na minha vida.

- Não é um rato, Christie, é um mico.

- Ah, um mico! Micos são animais ricos, o que ele está fazendo de bobeira aqui?

- Ricos? De onde você tirou isso Christie?!

- Ué, tem sempre alguém pagando ele, ele deve ser rico.

O mico saltava prum lado, saltava paro outro, corria pelo fio. A Christie acompanhava junto, passeando no parapeito da varanda, como se estivesse em cima de um fio também. A Christie ria de rolar no chão, impressionada com o mico: dizia, que ratinho esperto! Ela ficou tão feliz que deu o nome do mico de Alegria. Quando ficou de tarde, o mico entrou no mato, se escondeu. Agora a Christie está ali, triste, debruçada na varanda, esperando Alegria voltar.

Ass.: Borges, o gato – @borgesogato

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Christie e eu esperando pra ver se o miquinho subia na telha pra falar conosco

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Christie fissurada no mico por trás da rede

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O mico no fio, quem achar ganha um petisco

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O mico Alegria em nosso muro

O capacho do tio Grey

Fãs,

Meu tio Grey quis dar um ar mais imponente a sua casa e mandou que seus empregados humanos fizessem um capacho no formato dele. Só que agora o próprio Grey está inconsolável, pois acha uma falta de respeito que todos que vão entrar em sua casa limpem seus sapatos sujos no tão mimoso gatinho. Para solucionar o caso, meu tio Grey resolveu fazer vigília em frente à porta e toda vez que alguém ousa pousar ali, Grey faz fuuuz, insinua arranhar e até morder.

Mas, fãs, vigília de gato nunca é 100%, quando dá as 3 horas da tarde, depois da barriguinha cheia de ração, Grey acaba dormindo à porta. Christie e eu aproveitamos para descer e, só pra implicar com a monarquia, fazemos a festa no capacho do tio Grey: esfregamos nossas almofadinhas, afiamos as unhas, damos uns mordiscos e até esfregamos nosso bumbum! Depois subimos correndo pro quarto de novo. Quando o Grey acorda o tapete está coberto de pelos branco e pretos e tem nosso cheirinho especial do qual tão cedo não vai esquecer.

Ass.: Borges, o gato – @borgesogato

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A madeira ganhou vida e voou

Fãs,

Quando eu era pequeno, vovó tinha um tucano em sua casa (veja aqui: http://borgesogato.com/2012/02/04/que-passarinho-grande/) e eu não conseguia caçar o tucano porque ele era muito grande. Com o tempo, eu cresci e já não queria caçar o tucano, não por causa do seu tamanho, mas porque descobri que ele era de madeira. O tio Grey quando chegou em seu castelo, transformou o tucano de madeira em um adorno seu.

É de surpreender que, outro dia, tio Grey entrou assustado em nossa suíte e disse que seu pássaro de madeira tinha ido embora. Quando olhamos pra casa do vizinho, tava lá o tucano em carne, osso e bico. Tio Grey perguntou como podia ser, se ontem ele era madeira pura, agora tava por aí voando. E eu expliquei pro Grey que já tinha lido nos livros várias histórias assim, de homem que era de barro e saiu andando; de um menino que foi esculpido em madeira e saiu falando… o tucano era mais uma história dessas que são tão verdade que parecem contos de fadas.

Ass.: Borges, o gato – @borgesogato

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O tucano de madeira era o adorno do tio Grey

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Nós ficamos impressionados quando o tucano de madeira saiu voando e nos deixou

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O tucano ganhou vida, deixou o castelo do tio Grey e foi pousar na varanda do vizinho

Cara a cara com o Mario Grey

Fãs,

É do conhecimento de todos que meu tio Mario Grey e eu não temos lá um relacionamento muito afetuoso. Sou grato a ele por me hospedar em sua suite, mas ao mesmo tempo não gosto de me envolver muito, justamente pelos limites sociais impostos entre quem tem um castelo e quem mora de favor. Mas, de uns tempos para cá, não sei se o imperador Grey está se sentindo demasiadamente só, ele resolveu achar que é meu amigo.

De manhã acordo com ele arranhando minha porta, me convidando para tomar café. De tarde, ele quer brincar de bolinha de papel. De noite ele convida a mim e a minha irmã para descermos até o centro de convenções do castelo para socializar. Ser rei deve ter lá suas complicações, nós só olhamos a riqueza, os manjares, os empregados, mas fico imaginando que, mesmo com tudo isso, ele deve ser muito sozinho. Bom, mas é o preço que ele tem que arcar com a monarquia, oras. Agora, a cada esquina que dobro no castelo dou de cara com o Mario Grey me dizendo: “Olá, Borges, espero que esteja tendo uma boa estada em meu palácio!” Eu agradeço por debaixo dos bigodes e me tranco no quarto para ler uns livros, dormir e comer ração.

Ass.: Borges, o gato

Eu mal acordo e, antes de sair do quarto vem o tio Grey: “Bom dia, Borges! Como está a sua estada?”

 

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Eu desço as escadas e vem o tio Grey: “Olá, meu sobrinho… tem tido uma boa hospedagem?”

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Eu dobro uma esquina do castelo e lá está o Grey: “Olá, Borges, espero que esteja satisfeito com os serviços da criadagem”