Escolhas

Olá, fãs.

Há uma frase do Gato de Cheshire que já virou um clichê: ele diz para a Alice que para saber que caminho escolher precisa saber onde se quer chegar. Da filosofia sartriana que diz que o homem sofre para fazer suas escolhas, ao pagode do Zeca que diz que tem que deixar a vida  levar, os assuntos humanos rondam em torno da escolhas.

Sou instintivo: entre um pote de sachê e um pote de ração escolho o sachê porque o cheiro escolhe por mim e não eu pelo cheiro. Talvez um humano diante do pote de sachê pensaria: ah, mas sachê é mais caro, é melhor guardar para uma situação especial… mas eu não, eu simplesmente como e deixo que qualquer situação seja especial. Não vou dizer que não sofro pelas escolhas, sofro sim, pois quando se aprende a linguagem se está diante dos maiores sofrimentos do mundo. Escolher que palavra usar: todo texto oral ou escrito é um encadeamento de palavras e tento sempre escolhê-las minuciosamente, escolher os temas. Por que hoje falar de escolhas e não de sachês, por que falar de escolhas e não de sonhos, por que hoje falar de escolhas e não de aventuras na varanda? Tudo isto gera um sofrimento.

A diferença é que escolho mais o que sai da minha boca do que o que entra. Humanos invertem a lógica, eles se preocupam muito com o que comer, em escolher minuciosamente o menos calórico: repolhou ou couve… se a beterraba faz menos mal que a carne. Mas, em compensação, escrevem qualquer porcaria sobre uma linha de papel, dizem qualquer aborto linguístico para quem está ao seu lado. Humanos sofrem com escolhas, mas me parece que escolhem as escolhas erradas para sofrer.

Ass.: Borges, o gato – @borgesogato

302

Imitando a posição do Gato de Cheshire quando aparece na árvore para falar com a Alice

 

O real e a aparência do real

Fãs,

Para os gatos as aparências são muito importantes. Sei que para vocês também, mas vocês negam, né? As pessoas dizem assim: não, não, o importante é o interior… mas fica feio, fica pobre pra vocês verem só. Gatos são sinceros, gatos estão sempre lindos e gostam de estar assim. Além disto, para os gatos, a aparência pode servir como defesa. Vem um gato estranho na nossa direção: a gente se arrepia, fica na pontinha dos pés, parece que tem uns 3 metros de altura a mais! O gato intruso acha que somos gigantes e sai correndo. Isso prova que a aparência é muito importante.

Digo isto porque mamãe gosta de brincar comigo com umas minhoquinhas. Elas são ótimas, distraem, são divertidas. Mas noto que mamãe fica com uma cara de dó: ai, Borges, tá caçando as minhoquinhas de mentira, né? Tadinho… Ei, tadinho não, eu adoro essas minhocas, são até mais bonitas e mais limpinhas que as de verdade. Uma prova que a aparência é muito importante e que a cópia pode ser melhor que a coisa em si!

Ass.: Borges, o gato – @borgesogato

218 217 219

Arrumando o guarda-roupa

Fãs,

Mamãe estava arrumando o guarda-roupa. Passou o carnaval, o ano começou de vez. Mamãe disse que as roupas que não dão mais ou que não usamos, podemos dar para outras pessoas ou, se já estiverem muito ruins, jogar fora. Papai não. Papai nunca arrumou o guarda-roupa. Dizem que meu pai ainda traz consigo no guarda-roupa as roupas de infância, a sua primeira blusa do Vasco, uma camisa autografada pela seleção de 94, umas camisas floridas dos anos 80, umas bermudas que não existem mais nem em museus de moda, uma coleção imensa de cachimbos, um pé-de-pato, camisas com frases que já foram engraçadas e blusas com uns desenhos de uns rostos barbudos. Mamãe diz que papai é louco por guardar tanta coisa. Papai diz que mamãe é louca por jogar as coisas fora. Ainda bem que gatos não precisam de armário, tudo que preciso vestir trago sempre comigo.

Subi no armário para ajudar mamãe a escolher as coisas, algumas me pareciam tão bonitas, divertidas, não entendia direto porque ela se livrava delas: dariam ótimas cabanas, arranhadores, mordedores, brinquedos que nos fariam sorrir. Se eu tivesse um armário: guardaria nele os afagos, jogaria fora tudo que for mal pago, guardaria os petiscos, jogaria fora tudo que me trouxesse risco, guardaria os insetinhos, jogaria fora os espinhos, guardaria os soninhos da tarde, jogaria fora todo remédio ruim que arde.

Ass.: Borges, o gato – @borgesogato

201 200 202

 

Um dia após o outro, um carinho após o outro. Esta tal substituição.

Fãs,

Amanhã acaba o horário de verão. E este fato tão singelo e bobo que em nada alterará minhas horas incontáveis de sono, me fez pensar na finitude de tudo: hoje, acaba amanhã. Amanhã, acaba assim que acaba o hoje, pois deixa de ser amanhã e passar a ser hoje. Porém, será que sempre vai haver amanhã ou será que vai ter um último hoje? Se não pro mundo, pelo menos pra mim. E me pergunto, quantos hoje viverei?

Os humanos não lidam bem com a substituição, para eles a vida seria um hoje eterno. Mas eles não percebem, ou não querem perceber, que a vida é muito mais feita de ontens e amanhãs do que de hojes. Pois ontem há vários. Antes de eu nascer no Campo de Santana, o mundo teve tantos ontens. E, depois que eu me for, à sombra de uma estante de livros, o mundo terá ainda vários amanhãs. Mas, ao mesmo tempo isto é teoria, pois como nunca morri e a ciência precisa da observação para provar um fato, não se pode dizer que é certo que eu vá morrer, talvez eu seja um ser escolhido para a eternidade.

Se eu fosse imortal, não me moveria para nada. Para que levantar para beber água, para que ir ver o sol, para que comer, eu deixaria tudo para amanhã e amanhã não existiria. Nada precisaria se substituir, pois tudo seria hoje, um longo hoje repleto de dias e noites.

A graça da vida está mesmo na substituição dos pelos, das tigelas de comida, dos potes de água, das vasilhas de areia, dos dias, das noites, das famílias, das mentalidades. Tudo é substituível e a tudo se acostuma. Hoje ganhei os carinhos de minha mãe, amanhã ganharei de meu pai, depois de amanhã, talvez outra mão me acaricie ou talvez a mão acaricie outro. O momento parecerá tão eterno e sabemos que é tão frágil.

Ass.: Borges, o gato – @borgesogato

184

Sou feliz porque também sou triste

Fãs,

Deitado sobre o parapeito da varanda ouvi mamãe dizer de dentro da casa: “olha como Borginho tá feliz tomando vento!” Me perguntaram, do lado de fora da casa, se eu não era triste por estar sempre ali preso, parado, assistindo o mundo como se estivesse de frente para a TV. Mamãe está certa, sou feliz. A moça que passa também está certa porque sou triste. Como são as criaturas: ora felizes, ora tristes porque são complexas. Não sou o gatinho da depressão, tampouco sou o gatinho fofinho que deseja “bom dia, faces!” Sou todos os pêlos que perdi pela casa e os que ainda estão comigo. Sou feliz porque também sou triste.

Na vida, há dois tipos clássicos de seres que contam histórias: os que se vão, como os navegantes, por exemplo: chegam com lendas do novo mundo, com novidades, com descobertas. Os que ficam: contam as histórias da terra, mantêm as tradições, analisam o que está ao redor. Há gatos que se vão, são exploradores, desbravam a noite, as fêmeas, as lixeiras. Há gatos que ficam: eu. Penso sobre a tv, sobre a ração, sobre a areia higiênica. Talvez nada tão heroico quanto saltar sobre novos muros, mas confesso que gosto tanto do parapeito da minha varanda.

Há gatos que marcam seus pais humanos por morrerem em aventuras incríveis, eu marco minha mãe com minhas unhas ao me aventurar em seu colo.

Sou feliz, às vezes. Sou triste, às vezes. Pois quem é uma coisa só me parece tão idiota. O olhar é sempre momentâneo, é como uma foto: talvez quem olhe de fora me ache um gatinho triste, quem olhe de dentro me ache feliz. A vida é assim, como uma casa: há sempre gente a olhar de dentro e de fora.

Às minhas tias perguntadoras que são a parte feliz.

 Ass.: Borges, o gato – @borgesogato

159

Medo da fama

Fãs,

Já que o medo tem conversado tanto comigo, ontem resolvi falar dele e hoje continuo. Confesso: um dos meus maiores medos é o medo da fama. Há um ano atrás, meu blog iniciante tinha os comentários da tia Paola, da tia Drika, da tia Aline Fernanda (sumida Aline Fernanda), do tio André Poteussão e de ninguém mais. Eu era um anônimo, um gatinho escondido em Sulacap. Com o tempo, muita gente foi entrando nesta família borgiana que foi crescendo, crescendo, crescendo… e tenho medo que fique tão grande que eu não consiga mais gravar o nome de todo mundo, queria ser mais memorioso. Aprender com Deus lições para gravar o nome de todos os filhos.

Tenho medo que a fama queira me tirar de baixo da cama. Que queiram Borges aqui, acolá, pelas cidades, pelos países, pelos mundos e até em outras galáxias. Não gosto de andar de carro, imagina de avião, foguete! Tenho medo de ter que frequentar multidões, eventos badalados, tomar champanhe e fumar um cachimbo fedorento igual ao do meu pai.

Dentre os medos da fama, meu maior medo é que eu fique famoso e ninguém mais me leia, leia apenas os resumos, as notas, as explicações. Que todo mundo saiba falar de mim sem saber quem sou. Medo que qualquer frase vire minha e que andem pela internet com minha assinatura:

“Ser ou não ser, eis a questão!” (Borges, o gato)

“Pau que nasce torto, nunca se endireita.” (Borges, o gato)

“Vodka ou água de coco?” (Borges, o gato)

Instituiu-se no século XXI que o anonimato é a nova miséria e eu queria tanto continuar sendo um miserável, um miserável dentre vocês.

Ass.: Borges, o gato – @borgesogato

Pensando

Pensando

Orgulhosamente medroso

Fãs,

Há gatos que foram feitos para lutar, arranhar, miar ao ar livre. Eu fui feito para escrever. Não sei o que houve, sei que nasci assim. De novinho, apaixonei-me pelos livros e tudo começou. Outros gatos miavam à minha janela me chamando para buscar fêmeas, caçar ratos, mijar em novas terras. Mas eu não, eu preferia ficar em casa, lendo, escrevendo… Sempre fui medroso, é verdade. Acho que quanto mais inteligente se é, mais medroso se é. Pois só a ignorância pode nos fazer ter coragem diante deste mundo tão perigoso. Os humanos envergonham-se de se assumir o medo, eu me orgulho! Pois todo medroso é potencialmente um longevo. Nunca vi homem que não entra em avião, morrer de acidente de avião. Nunca vi mulher que não saia de casa por medo de ser assaltada, ser assaltada. Nunca vi gente com medo de altura morrer por cair de uma passarela. Fãs, é o medo que nos faz evitar o perigo. Todos os corajosos que conheci através dos livros que li, anteciparam a morte. Eram tão corajosos que morreram em guerrilhas, morreram em revoluções, morreram durante esportes radicais, morreram por enfrentar foças políticas opositoras. Ah, fãs, são corajosos de todos os tipos e de todos os gostos: De Che Guevara a Ayrton Senna. De Getúlio Vargas ao Pepê. Os medrosos ficam aqui vivos, afinal, alguém precisa ficar vivo para inventar uma história para os valentões que morreram.

Ass.: Borges, o gato – @borgesogato

134

Quando o Mario Grey vem me caçar…

133

…Ele não me pega, porque graças ao MEDO, sei me esconder!

Dentre todos os textos, o texto

Fãs,

Dentre todos os textos, dentre todos eles: dos mais cotidianos ao mais extraordinário, eu queria escrever O Texto. Pois a angustia de aprender a escrever, sendo felino, é lidar com a imperfeição. Todo texto é imperfeito, incompleto, inacabado. Fosse perfeito, bastar-se-ia. Não haveria mais o que dizer, o que acrescentar, o que contrariar. Veja um gato. Um gato se basta. Ele não precisa de ferramentas para viver. O humano não. O humano precisa de diversas extensões, é inacabado, incompleto. A língua, o português, por exemplo, é humano, logo, imperfeito. Eu fico aqui, impacientando-me com esta imperfeição tão linda chamada escrita. Queria uma escrita realmente felina, perfeita, mas em quase um ano escrevendo, constato a impossibilidade. Me causa uma náusea olhar pra todas essas letrinhas do teclado e saber que ali estão todos os textos do mundo. Ali estão todos os textos do Machado de Assis, do Shakespeare, do meu xará argentino. Está também o texto perfeito, mas para isto eu preciso acertar a combinação. Passo o dia fazendo contas, calculando alucinadamente que sequência de letras pode desembocar no texto que é O Texto. Mas, quando estou próximo ao resultado, ao cálculo dos cálculos que leva a esta descoberta, desisto. Pois afinal, que vou mais escrever depois de escrever o texto perfeito?

Ass.: Borges, o gato.

131

Em busca de um texto que seja O TEXTO.

 

Por uma estética da fofura

Fãs,

Nada mais sublime aos meus olhos que a arte. Arte implica em forma. O humano é por excelência um ser conteudista. Humanos querem estar cheios de comida, cheios de dinheiro, cheios de conhecimento. Pouco importa se a comida é ruim, se o dinheiro é sujo, se o conhecimento é inútil. Nós, gatos, não, nós somos seres estéticos. Todo gato é um esteta por excelência. Podemos andar pouco, não somos andarilhos profissionais como os cavalos ou camelos, mas cada passo nosso é um passo com perfeição, é uma pintura. Podemos dar pouco saltos, não somos cangurus, tampouco pererecas, mas cada salto nosso há que ser monumental. Para os gatos é necessário beleza e vou além, nós gatos forjamos uma nova estética: a estética da fofura.

Pode me perguntar o fã-leitor qual a diferença de uma estética da beleza e uma estética da fofura. Pois, fãs, explico-lhes: olhem o cavalo, o cavalo é belo, imponente, forte! Mas, um cavalo não é fofo. Olhem um cão, pode ser veloz, caçador, alegre, mas um cão está longe da fofura de um gato. Olhe um humano, ah, um humano só alcança alguma fofura em seus extremos: ou muito jovem, ou muito velho. Nós gatos, independentemente da idade, independentemente das feições, independentemente do dia, somos fofos. Isto é arte: é cada movimento calculado, é cada respiração programada, é cada ronronar pensado. Vivemos para além da estética da beleza, vivemos a estética da fofura e não a abandonamos nunca, pois se os humanos babam, roncam, peidam,abrem a boca e se engasgam enquanto dormem, nós, até dormindo, somos nuvens de sonho.

Ass.: Borges, o gato – @borgesogato

114

Por uma estética da fofura há que dormir pensando

115

Fofo até dormindo

116

A posição é pensada, escolhida, trabalhada e, às vezes, improvisada pela fofura

113

Há um desmunhecar na continência militar, um deboche da força, uma sutileza em apoiar a mão na altura das sobrancelhas para forjar fofura

Na beirinha do fim do mundo – Episódio 1 de 10

Fãs,

Eu estava dormindo normalmente, nem mais nem menos que sempre. Ouvi a televisão dizer algo de fim do mundo. Acordei, levantei a orelha, achei estranho, mas não me impediu de voltar a dormir. De tarde ouvi papai falar: “Oscar Niemeyer morreu, então é bem possível que o mundo acabe mesmo!” Já achei estranho de novo, mas coincidências acontecem… Pela noite, vovô entra pela porta falando que o mundo vai acabar dia 21. 3 vezes já não é mais coincidência! Passei a pata no notebook, corri pra baixo do sofá e fui ler algo no Facebook, mas ele estava fora do ar! A coisa não estava boa, talvez fosse acabar tudo mesmo. Joguei no Google e achei que o fim do mundo está marcado para o dia 21 deste mês! Mas, como assim, o mundo é igual a um filme que acaba sem a nossa autorização, acaba porque o autor quis, é isso?

Fiquei pensando sobre o assunto o dia inteiro. Fui até o calendário e olhei que havia dia 22 de dezembro, ou seja, pelo menos o moço que faz o calendário acha que o mundo não vai acabar, senão não teria gastado tinta imprimindo os outros dias. Mas ainda não entendi direito o que se quer dizer com a expressão “o mundo vai acabar”. O mundo vai acabar é:

a) O mundo vai acabar e nós vamos juntos

b) O mundo vai acabar, mas azar o dele, ficamos por aqui

c) O mundo vai acabar e os humanos vão junto, o resto segue!

Preciso entender isto para saber como agir até este dia 21, por enquanto, estou achando que apesar do fim devo continuar por aqui, afinal, tá muito ruim não, tem água, comida, cama macia e carinho da mamãe. Se o mundo acabar, acho que vou estar ocupado demais para reparar.

4