Fãs,
Deitado sobre o parapeito da varanda ouvi mamãe dizer de dentro da casa: “olha como Borginho tá feliz tomando vento!” Me perguntaram, do lado de fora da casa, se eu não era triste por estar sempre ali preso, parado, assistindo o mundo como se estivesse de frente para a TV. Mamãe está certa, sou feliz. A moça que passa também está certa porque sou triste. Como são as criaturas: ora felizes, ora tristes porque são complexas. Não sou o gatinho da depressão, tampouco sou o gatinho fofinho que deseja “bom dia, faces!” Sou todos os pêlos que perdi pela casa e os que ainda estão comigo. Sou feliz porque também sou triste.
Na vida, há dois tipos clássicos de seres que contam histórias: os que se vão, como os navegantes, por exemplo: chegam com lendas do novo mundo, com novidades, com descobertas. Os que ficam: contam as histórias da terra, mantêm as tradições, analisam o que está ao redor. Há gatos que se vão, são exploradores, desbravam a noite, as fêmeas, as lixeiras. Há gatos que ficam: eu. Penso sobre a tv, sobre a ração, sobre a areia higiênica. Talvez nada tão heroico quanto saltar sobre novos muros, mas confesso que gosto tanto do parapeito da minha varanda.
Há gatos que marcam seus pais humanos por morrerem em aventuras incríveis, eu marco minha mãe com minhas unhas ao me aventurar em seu colo.
Sou feliz, às vezes. Sou triste, às vezes. Pois quem é uma coisa só me parece tão idiota. O olhar é sempre momentâneo, é como uma foto: talvez quem olhe de fora me ache um gatinho triste, quem olhe de dentro me ache feliz. A vida é assim, como uma casa: há sempre gente a olhar de dentro e de fora.
Às minhas tias perguntadoras que são a parte feliz.
Ass.: Borges, o gato – @borgesogato









