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Uma ruína

Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. (…) A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como um lírio pode nascer de um monturo.” (Manoel de Barros)

Quando as gavetas do armário, todas, caíram, papai e mamãe ficaram tristes: “poxa, agora vai ficar ruim de pegar a roupa.” Christie e eu comemoramos. Para uns é maravilhoso o que é um entrave para outros. Estamos habitando as ruínas do armário. Mamãe diz: “se caem mais, te esmagam!” Mas eu sei que, matematicamente, é impossível da ruína se arruinar mais. Eles perderam um armário, nós ganhamos um esconderijo. Ninguém nos acha nas escuridão das entre-gavetas: há teto, há cama, há colchão. Já conheço pelo tato todas as roupas do meu pai. Das ruínas, nasceu uma toca de gato, como o lírio nasce do monturo. Agora, toda vez que papai cata uma roupa, ele leva, mas do que nunca, parte de mim com ele.

Ass.: Borges, o gato – @borgesogato

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4 comentários em “Uma ruína

  1. Que bagunça!!! Billy e Mia adoram quando estou arrumando a faxina anual da casa. Daquelas que vai um monte de coisas para adoção e outras muitas para o lixo.

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